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O Tradicional na Modernização
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Reflexão e Crítica
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Milenarismo e Insurgência:
Fragmentos para a Leitura de Ernst Bloch.
Por
Jacob (J.) Lumier
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Rio de Janeiro, 04 de Dezembro de 2008
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Etiquetas: dialética, utopias sociais, milenarismo, insurgências camponesas, mundo moderno, ambiência tradicional, heresias cristãs, Alemanha, superestrutura, modernização.
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Continuação da Página MILENARISMO E INSURGÊNCIA
A análise do problema do legado do passado dentro do processus histórico.
O legado do passado dentro do processus histórico como matéria das contradições contemporâneas não pode ser adequadamente contemplado caso o enfoque seja limitado ao capitalismo como ao presente em seu estágio último.
Neste ponto, a reflexão filosófica sobre os resultados do momento inicial da análise realista estética compreende uma orientação metodológica sobre o problema crítico histórico do modo de produção capitalista tirada do contexto dos anos vinte na Alemanha, ou melhor, compreende o alcance metodológico positivo e racionalista do concretamente utópico na análise do tradicional nas superestruturas.
Segundo Ernst Bloch, a análise do problema do legado do passado dentro do processus histórico – dentro, e não somente nos limites do mesmo, como a etnologia estuda as sociedades arcaicas – leva a valorizar a cultura antiga herdada do gótico tardio em vias de desaparecimento ante a intensa modernização/industrialização de um capitalismo então soberano e já corporativo naquela época de transição.
Por um lado, trata-se de um problema encaminhado pelas contradições entre as forças produtivas desencadeadas e as relações de produção, ditas contradições contemporâneas. Por outro lado, trata-se de um problema cujo equacionamento põe em relevo que, em parte, essas contradições se alimentam da matéria que a contradição não-contemporânea por sua vez não encontra no tempo presente, e busca de feição tão oblíqua no passado.
A Seqüência Racionalista e seu conteúdo fictício.
Quer dizer, a matéria das contradições contemporâneas não é somente a matéria das forças produtivas muito presentes ou desencadeadas com a modernização, mas é também a negatividade extrema de tal situação.
Situando as negatividades reificadas em uma seqüência racionalista sui generis, Ernst Bloch observará que é o homem ou o proletário alienado, o trabalho alienado, o fetiche da mercadoria, em suma a inconsistência do nada, do vazio, que conduzem "por esta razão" a um renversament dialectique (reviravolta dialética), e, se conduzem a isto, será por efeito de uma seqüência racionalista própria ao presente capitalista.
Desta forma, enfatizando que o legado do passado dentro do processus histórico como matéria das contradições contemporâneas não pode ser adequadamente contemplado caso o enfoque seja limitado ao capitalismo como ao presente em seu estágio último, a reflexão filosófica de Ernst Bloch põe em questão metodológica tal seqüência racionalista, acentuando por contra o elemento positivo que essas negatividades reificadas comportam.
Diz-nos que esse elemento positivo se encontra no interior da contradição contemporânea e de sua matéria, no interior das negatividades reificadas e se apresenta sob a forma de alguma coisa que falta, se apresenta como a aspiração ao homem completo, ao trabalho não alienado, ao paraíso terrestre.
Na análise do tradicional como positividade, haverá que distinguir uma outra matéria diferenciada: a matéria de uma contradição que se rebela a partir de forças produtivas absolutamente não-desencadeadas: que se rebela a partir de conteúdos intencionais de uma espécie que permanece sempre não-contemporânea[i].
A distinção dessa matéria diferenciada surgirá em contraponto à seqüência racionalista das negatividades reificadas. Modo de contraponto exigido em face do conteúdo fictício subjacente ao caráter abstrato das seqüências conceituais.
Quer dizer, na seqüência racionalista, as negatividades reificadas passam por determinações coisistas inelutáveis da contradição que, por suposição, levam imperiosamente ao renversement, o qual, por sua vez, torna-se dessa maneira fictícia uma necessidade racionalista.
A totalidade com vários níveis de realidade histórica ou de passado.
Há que distinguir na análise blocheana do tradicional como positividade uma outra matéria diferenciada: a matéria de uma contradição que se rebela a partir de forças produtivas absolutamente não-desencadeadas: que se rebela a partir de conteúdos intencionais de uma espécie que permanece sempre não-contemporânea.
Desta sorte, a sociologia literária de Ernst Bloch não somente incluirá a análise do tradicional, mas por via de aprofundamento no concretamente utópico constatado nas superestruturas, atenderá à orientação metodológica posta em obra no estudo de tal positividade diferenciada.
Por sua vez, nesse estudo se distingue de início uma universalidade velada, com a qual a espécie que permanece sempre não-contemporânea é em contato: é o elemento subversivo e utópico do homem, da vida, que não foi satisfeito em época alguma, o qual, no realismo estético de Ernst Bloch, será apreciado como o elemento postulativo propriamente histórico-filosófico.
Em seguida, se nota que a positividade da espécie não-contemporânea é também em contato com as positividades que foram evocadas muito cedo contra o capitalismo como formas e elementos de uma matéria antiga.
Tratando-se em realidade de conteúdos intencionais, essas positividades precoces serão apreciadas como momentos da contradição não-contemporânea, seguintes: (a) – os elementos positivos da burguesia revolucionária, dentre os quais a natureza arcadiana, simbólico-bucólica, de Rousseau; (b) – os elementos positivos misturados de elementos da Restauração; (c) – os elementos misturados de abdicação da revolução, classificados “ilusões de um passado não posto em dia”, como o Moyen Âge do romantismo, incluindo neste, “o renascimento de um mundo hierarquizado em feição qualitativa e orgânica a partir dos espaços vazios do problema da coisa em si” (no sentido da insuficiência da crítica hegeliana ao kantismo de que nos fala Kierkegaard em O Conceito de Angústia[ii]).
O fundamento da contradição não-contemporânea é o conto irrealizado do bom velho tempo, o mito literário, a lenda fabulosa mantida sem solução do velho ser obscuro da natureza. Nessa lenda fabulosa se encontra um passado não superado desde o ponto de vista do desenvolvimento das oposições econômicas, mas sob o aspecto material também é um passado que não foi ainda dignificado como passado.
Nesse aprofundamento metodológico do concretamente utópico, os momentos da contradição não-contemporânea já estão suscitados na vida do elemento que não foi satisfeito em época alguma, e também já o estão na totalidade com vários níveis de realidade histórica ou de passado.
Quer dizer, essa vida da espécie que permanece sempre não-contemporânea e essa totalidade múltipla com a qual é em contato configuram o marco de onde se tira a matéria autêntica que: (a) – se opõe à alienação e que (b) –, seja favorecendo o lado das forças da nova sociedade ou contemplando outros lados, inspira o que Ernst Bloch classifica “o bravio de tornar in-domesticado” (no sentido da figura do “bom selvagem”, de Montaigne a Diderot; aquele que se esquiva de relacionar-se com os homens e se apraz em viver sozinho e retirado). Mais ainda: o bravio do agarramento ao espaço, o bravio da natureza dionisíaca (extasiante, inspiradora, entusiasmante) e arcadiana embrulhadora (ou metamorfoseante).
Em poucas palavras: o bravio de tornar in-domesticado em suas modalidades na história literária da humanidade valem nessa filosofia estética histórico-crítica como manifestações da vida da espécie não-contemporânea.
Desta forma, se classifica essa vida utópica e essa totalidade múltipla (a) – como espécie humana sob o aspecto da criatura que não foi saciada (inclusive em sua aspiração); (b) – como a advertência profética e o testemunho de esferas (no sentido do conhecimento místico-simbólico) que, acentuando o alcance postulativo da matéria e na medida em que é uma reflexão desenvolvendo-se no âmbito do capitalismo, exigem da própria reflexão filosófico-sociológica a formulação em termos do problema dessa totalidade com vários níveis de tempos passados.
Note-se que Ernst Bloch ele próprio oferecerá em seu realismo estético uma formulação inicial dessa totalidade com vários níveis de tempos passados. Trata-se de uma formulação que (a) – ultrapassa o cálculo abstrato e reducionista inerente ao capitalismo bem como ultrapassa a orientação em metade racionalista que lhe corresponde também; (b) – desenvolve uma orientação ascética a respeito das exigências da “natureza fabulosa”, tomada esta como mero museu de todos os enigmas sem solução, o que levará nosso autor ao ideal estético realista.
Segundo Ernst Bloch e como já o notamos, o problema metodológico alcançando o modo de produção capitalista, o problema do legado do passado dentro do processus histórico, não pode ser adequadamente apreciado caso a reflexão filosófico-sociológica se limite ao capitalismo como ao presente em seu estágio último. O fundamento da contradição não-contemporânea é o conto irrealizado do bom velho tempo, o mito literário, a lenda fabulosa mantida sem solução do velho ser obscuro da natureza. Nessa lenda fabulosa se encontra um passado não superado desde o ponto de vista do desenvolvimento das oposições econômicas, mas sob o aspecto material também é um passado que não foi ainda dignificado como passado[iii].
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O realismo Estético, a análise das insurgências camponesas dos séculos XV e XVI e o elemento postulativo histórico-filosófico em obra: descobrindo o gótico tardio no milenarismo.
Neste ponto tem início o segundo desdobramento da reflexão estético-sociológica de Ernst Bloch, uma vez compreendido não só que a busca do campo estético, no primeiro desdobramento dessa reflexão, se realiza na constatação do concretamente utópico, mas que o âmago metodológico dessa busca é o problema filosófico do legado do passado dentro do processo histórico como superestrutura e, nesta última, como não-contemporaneidade.
Desta forma, neste segundo desdobramento da reflexão no capitalismo, mas para-além do presente capitalista, a análise do tradicional vai buscar o paradigma da possibilidade objetiva mediante uma reflexão que desenvolve um realismo estético.
Quer dizer, Ernst Bloch reexamina a corrente filosófica vinda de Avicena e Averroes, passando por alguns filósofos como Giordano Bruno e humanistas da Renascença como Júlio César Scalígero, mas tirada de Aristóteles e da sua Poética.
Trata-se da corrente filosófica que via na natureza a matéria grávida de formas e pendente de ulterior liberação, a natura naturans; tanto mais relevante porque uma corrente na qual se aproximam pensadores tão diferentes como Hegel e Schopenhauer (reaproveitando a este último para o pensamento dialético, Ernst Bloch será afastado das correntes marxistas por Georges Lukacs).
Com efeito, segundo Ernst Bloch esses dois pensadores coincidem na idéia de um parturejar artístico a partir da matéria-natureza grávida de forma, levando a conceber toda a arte em contínuo desenvolvimento a respeito do material elaborado como da elaborada matéria-sujeito da coisa.
Em ambos, o artista (a subjetividade) aparece como motor perfeccionante (dator formarum) e em Hegel a arte como o que converte cada uma de suas formas em uma Argos de mil olhos[iv], a fim de que a alma interior e a espiritualidade sejam percebidas em todos os pontos do fenômeno[v].
Nota-se assim uma espécie (species) de educação artística de conteúdos criados pela formação na medida de um ideal estético prefigurado em modo imanente no fenômeno, um ideal como arquétipo entelequial imanente das coisas, dos caracteres, das situações [vi].
O artista moderno é a força emancipadora e ao mesmo tempo aperfeiçoadora, pondo em relevo a configuração da matéria disposta já na matéria mesma, de tal sorte que a forma, a espiritualidade se torna idêntica ao ideal entelequial.
O artista não imita a natureza igual que um ator, mas, como um novo deus, leva a termo a criação. Nessa corrente filosófica tendente para os elementos de um realismo prevalece, pois, não a figura de Proteu, a qual se imporá na literatura e arte de avant-garde, mas sim a figura de Prometeu. A beleza artística é buscada em vista de pôr em relevo no existente, em maneira direta e sem encontrar a resistência do obstáculo, o real típico, e, igualmente, haverá que dar forma criadora à perfeição indicada nas normas e dimensões da matéria-natureza.
Segundo Ernst Bloch a passagem ao realismo estético pode ser detectada ainda no aristotelismo goetheano[vii] no qual a função da enteléquia é colocada de cabeça para baixo e permanece inconclusa, ou seja: “o artista, agradecido à natureza que também engendrou a ele, devolve a esta uma segunda natureza que desta feita é uma natureza sentida, pensada, aperfeiçoada humanamente”.
É o artista que, como subjetividade ontologicamente orientada, aspira a continuar pintando a natureza imanentemente. Portanto, a arte criadora põe manifesto o típico ao mesmo tempo em que prefigura como ideal realista a possibilidade não realizada ainda, estimulando-a na realidade viva. Em poucas palavras o ideal realista é imanente à realidade aberta, à latência da possibilidade real, à matéria inconclusa.
►Tal a orientação filosófica para descobrir no realismo estético o paradigma da crítica histórico-sociológica (compreensão do problema da possibilidade objetiva) assimilada em Ernst Bloch, à luz do qual poderemos compreender porque esse autor examina como milenarismo o fenômeno coletivo da ambiência tradicional que muitos autores de sociologia estudiosos do espírito do capitalismo limitaram-se a abordar pelo aspecto mais exterior e particular no messianismo (para Max Weber trata-se de um aspecto das exaltações carismáticas).
Com efeito, na apreciação desse fenômeno coletivo da ambiência tradicional estudado em sociologia a partir da observação das insurgências camponesas intensificadas no século XV e tornando-se revolucionárias no século XVI, a análise desenvolvida por Ernst Bloch (a) – acentua a exigência metodológica de examinar sob orientação filosófica a manifestação dos camponeses revoltosos; (b) – põe em relevo a intervenção de clamores de outra índole que não apenas comportamentais; (c) – faz notar no evoluir autônomo desses clamores a latência da possibilidade real, a pegada do ideal estético realista em obra.
Tanto é assim que, mesmo destacando constituírem as apetências econômicas as motivações mais razoáveis e constantes, a análise por Ernst Bloch visará a influência exercida desde longe pelo evoluir autônomo da eficiente intervenção de conteúdos culturais e religiosos.
Aliás, note-se que este evoluir autônomo, por não se mostrar plenamente não-histórico, se revelará no fim histórico-filosófico e imprimirá o alcance postulativo, ascético do caráter espiritual e religioso como processus de auto-educação da linhagem humana[viii].
Quer dizer, o fato de produzir-se uma época lendária de revolução comunista e cristã no século XVI, sobrepujando tudo o que fizeram os hereges anteriores, é um fato total que escapa à consideração apenas econômica.
Mesmo destacando constituírem as apetências econômicas as motivações mais razoáveis e constantes, a análise por Ernst Bloch visará a influência exercida desde longe pelo evoluir autônomo da eficiente intervenção de conteúdos culturais e religiosos como níveis da realidade estética.
O enfoque pelo aspecto econômico se arrisca não somente despojar aquele fenômeno coletivo do seu caráter originário como revolução social, mas tende a tornar reflexos e parecer irreais, transladando-os ao plano meramente ideológico, (a) - tanto os ali resplandecentes conteúdos profundos da história humana, quanto (b) - a própria visão in-dormida do antilobo, isto é a visão de um reino enfim fraternal[ix].
Com esta abordagem crítico-histórica em profundidade, a análise desenvolvida por Ernst Bloch porá em destaque que o evoluir autônomo da eficiente intervenção de conteúdos culturais e religiosos tem pelo menos uma realidade sociológica: a realidade de estímulo.
Neste sentido, lembrando-nos de Weber e Marx, sustentará que as exaltações visionárias tão características das insurgências camponesas têm certo papel em sociologia bem reconhecido.
Desta sorte, Max Weber notará a compreensão de que as orientações in-conexas da vontade, junto com os conteúdos culturais e religiosos, devem ser considerados como complexos ideológicos superiores, dos quais depende a consciência econômica como estado do modo de produção em cada momento concreto.
Karl Marx, por sua vez, tivera notado a compreensão de que o papel de estímulo desempenhado pelas exaltações visionárias atua ao começo de toda a grande revolução: (a) – na medida em que os novos senhores da situação tornaram a se sentir pagãos como os romanos da antiguidade clássica; (b) – na medida em que os camponeses alemães dos séculos XV e XVI – mais tarde também os puritanos – tomaram emprestado do Antigo Testamento linguagem, paixões e ilusões para sua revolução burguesa; (c) – na medida em que até mesmo a Revolução Francesa se adornou com nomes, palavras de ordem e enfeites procedentes da época do Consulado e do Império romanos.
►Nada obstante Ernst Bloch insistirá na importância da idéia milenarista para a compreensão de uma grande revolução social como a do século XVI no ambiente tradicional agrário da cultura. Censurará a Karl Marx o positivismo deste ao ter arrancado o comunismo do âmbito da teologia para deixá-lo restrito ao da economia política e que, assim procedendo, Karl Marx privou o comunismo dos seus laços profundos com a idéia milenarista de sua origem, laços estes constatados tanto historicamente quanto congenitamente[x].
Compreendendo as exaltações visionárias e o milenarismo como crença coletiva real, o gótico tardio (séculos XV e XVI) é o fenômeno cultural da ambiência tradicional mais enraizada no medievo do qual se receberá a profundidade do sentimento passado pela realidade estética da cultura.
Podemos ver então no que seguirá que a compreensão do milenarismo decorre do ideal estético realista em obra (o evoluir autônomo da eficiente interveniência de antigos conteúdos culturais e religiosos) e que esta compreensão por este ideal entelequial[xi] será confirmada e será recorrente em várias passagens textuais do estudo por nosso autor sobre o teólogo milenarista Thomaz Munzer, lá onde se trata de sublimação ou sedução.
Ensina-nos Ernst Bloch (a) – que o milenarismo se faz de afeições, sonhos (o onírico in-dormido), emoções sérias e puras, entusiasmos projetados para um fim; (b) – que estas manifestações não decaem, mas contribuem para dar cor de realidade a um largo período da história e da vida social; (c) – que tais estados são provenientes de um ponto original criador e determinador de valores que há na alma humana; (d) – que tais estados mantêm em todo o tempo como assunto de permanente atualidade a orientação em profundidade do Século XVI.
Quer dizer, preserva-se ou atualiza-se o milenarismo, afirmado tanto na chamada guerra dos camponeses quanto no movimento anabatista como vertentes da marcha do gótico tardio, fenômeno cultural do qual se receberá a profundidade do sentimento passado pela realidade da cultura.
Ensina-nos ainda Ernst Bloch que, nesse caso das insurgências camponesas, do movimento iconoclasta e do espiritualismo, ademais dos elementos do desencadeamento e do conteúdo do conflito que são de ordem econômica, há que considerar justamente o elemento essencial originário em si mesmo, a saber: o retorno do mais antigo sonho; o maior espocar para todo o tempo da história das heresias; o êxtasis do caminhar erguido e da impaciente, rebelde e severa vontade de paraíso [xii].
Na literatura de avant-garde encontram-se motivos artísticos recorrentes que não somente procedem da ambiência tradicional, mas que, confluindo justamente com a reflexão de Ernst Bloch, são tirados da própria história das heresias, como o é ademais a assinalada tentativa sonhada de Joyce.
Não deve causar espanto esta compreensão do ideal estético realista (entelequial) como posto em obra na história das heresias. Basta lembrarmos que outro pensador da estética sociológica como Georges Lukacs encontra na reflexão de Ernst Bloch e em sua pesquisa do concretamente utópico, uma grande admiração pela literatura de James Joyce e que esta admiração é confirmada como já o mencionamos na constatação de que o Ulysse de Joyce, datado em 1924, compreende como leitmotif uma tentativa a mais quimérica de refundar a escolástica no caos.
Quer dizer, na literatura de avant-garde encontram-se motivos artísticos recorrentes que não somente procedem da ambiência tradicional, mas que, confluindo justamente com a reflexão de Ernst Bloch, são tirados da própria história das heresias, como o é ademais a assinalada tentativa sonhada de Joyce.
Além disso, é digna de nota a coincidência de datas entre a notável obra critico - histórica sobre Thomas Münzer, de Ernst Bloch, assunto deste nosso comentário, a qual é datada em 1921, e o Ulysse, de Joyce, que é de 1922.
Quer dizer, a pesquisa em história das heresias é uma orientação intelectual dos anos vinte, notada inclusive em Thomas Mann. Portanto, a apreciação mais detalhada dos temas dessa história das heresias através da análise em realismo estético, por Ernst Bloch, nos aproximará mais intimamente do universo literário do Século XX, em sua vertente de atualização das épocas renascentistas e modernas.
A Marcha do Gótico Tardio, a Renascença e a História das Heresias.
Sem dúvida, é pela história das heresias que se desvela em cor de realidade o caráter postulativo, ascético do ambiente tradicional mais enraizado no medievo. Não que tenhamos deixado de assinalá-lo, mas até este ponto só tivemos a oportunidade de mencionar a relevância na morfologia social da forma gótica, sua persistência como significação prática efetiva na vida rural através do feitio dos objetos, móveis e mansões.
Entretanto, com a história das heresias e muito mais profundamente do que um nível cristalizado, estático, apenas simbolizando a fixação do apego místico ao solo e à mansão, a análise do tradicional põe em relevo que se trata da própria configuração dinâmica da ambiência coletiva como um todo, se trata da marcha do gótico tardio caracterizando com a cor da realidade todo o complexo cultural insurgente dos séculos XV e XVI.
Observação esta tanto mais relevante quanto se põe em relevo a outra face da Renascença, da qual Ernst Bloch dirá ser, não a face mais conhecida das musas, do lirismo e versificação, mas a outra face, que é orientada no sentido do milenarismo desde Joaquim Di Fiori nos séculos XI e XII até Eckardt, Thomas Münzer, Paracelso, Jacob Boheme. Será esse gótico tardio em marcha que definirá o quadro de referência como incluindo a efervescência dos setores sociais e a rebeldia das massas, e delimitará o campo de percepção dos temas, sobretudo a Guerra dos Camponeses, o movimento iconoclasta (incluindo o anabatismo e os predicadores ambulantes), o espiritualismo (incluindo o visionarismo astrológico e o milenarismo).
A análise critica do tradicional do ponto de vista da história das heresias põe em relevo na marcha do gótico tardio que se trata da própria configuração dinâmica da ambiência coletiva como um todo: a marcha do gótico tardio caracteriza com a cor da realidade todo o complexo cultural insurgente dos Séculos XV e XVI.
A história das heresias compreende, pois as seguintes linhas:
(a) – a idéia milenarista como ultrapassando o messianismo e toda a expressão sociológica da crença coletiva real de que Jesus Cristo reinaria na Terra mil anos antes do Juízo Final. É a essa idéia que se liga a doutrina herética de Joaquim Di Fiori sobre o Terceiro Evangelho ou Evangelho Eterno, a qual será afirmada no século XVI por Thomas Münzer contra os papistas e como incentivo à preparação do advento do Senhor para realizar o Terceiro Império que então se cria iminente, como o Império que, na doutrina milenarista, haverá de seguir-se ao Império da Lei (triunfo do Deuteronômio no Estado Imperial Romano da Antiguidade Clássica) e ao Império da Graça (triunfo da Igreja no Sacro Império Romano-Germânico);
(b) – o movimento das seitas milenaristas constituídas sem continuidade direta com a doutrina de Di Fiori, mas que eram voltadas para a Preparação do Advento do Terceiro Império e afirmavam o sentimento de ser escolhido para tal Dia, o sentimento de formarem uma estirpe seleta, salvaguardada, constituída e favorecida para presenciar o Dia do Senhor;
(c) – a difusão e a afirmação da crença na idéia milenarista e no imperativo da Preparação como disseminando-se no ambiente tradicional das insurgências camponesas dos séculos XV e XVI, sobretudo em virtude da atuação dos predicadores andarilhos. Na análise blocheana, que investiga também a procedência superestrutural da idéia milenarista – como foco de criação de seitas, do milenarismo, da própria difusão e afirmação da crença – o que caracteriza a heresia cristã em sentido estrito é a experiência do êxtasis místico-ascético de sentir-se escolhido para presenciar o Dia do Senhor, experiência esta que forma a base da seita como realidade sociológica e místico-ascética do século XVI.
►Todavia, para visualizarmos a construção metodológica do gótico tardio como quadro de referência devemos desdobrar a compreensão da história das heresias desde o ponto de vista do ideal estético-realista (e não história religiosa).
Nessa abordagem será então posto em relevo o processus de passagem do elemento postulativo ou histórico-filosófico nas superestruturas, como o elemento que resta não-realizado e que se afirma correlativamente com o fortalecimento da interioridade do homem, base do individualismo campesino e de seu ascetismo.
Por esta via, a análise desdobrará o âmbito do misticismo católico, em vista de sobressair por sua vez o lado não milenário, por distinção de certos aspectos do misticismo católico precisamente mais compatíveis ao chamado milenário (tais como os apelos à introspecção, à viagem sem retorno, à santificação, à comunhão universal).
Compreender-se-á por este enfoque da interioridade do homem a diferença da Igreja cultural, seguinte: instituição pedagógica que, no sentido da apreciação paulina da Lei antiga, educa e dirige, mas que no outro mundo não há lugar para ela.
A história das heresias será diferenciada então em relação a esta figura cultural de uma Igreja milenarista (compreendendo os aspectos do misticismo católico acima relacionados) que, localizada no horizonte entre este mundo e o Mais-além, afirma o contraste de uma Igreja invisível sob a forma totalmente desconhecida pertencente ao tempo vindouro e ao Mais-além: a forma desconhecida da comunhão dos santos.
Mas não é tudo. Do ponto de vista estético realista que é o da análise por Ernst Bloch, o misticismo católico é percebido como estrato intermédio entre, por um lado, a estática ideologia do Corpo Místico de Cristo, sustentada por este mundo terrenal (nível do secular) e, por outro lado, a verdadeiramente utópica idéia do Corpo Místico, como correspondendo a um mundo autêntico.
Quer dizer, há uma repercussão desse estrato intermédio que alcança lá onde a filosofia relaciona o mundo real no domínio cultural, por um lado, com a visão de um mundo que se fez realidade, por outro lado – relacionar este que Ernst Bloch detecta como o componente estético-sociológico do conceito hegeliano de realidade essencial.
Seja como for, essa repercussão estética do catolicismo legado do Sacro Império Romano-Germânico afirma, pois, conteúdos de índole cultural e não milenária, desprovendo do zelo cristão a todo o complexo cultural duradouro, de tal sorte que nesses conteúdos se torna perceptível o que a análise classificará de princípio universal mais suportável, a saber: o puro princípio cultural da Igreja, equiparável ao das grandes utopias sociais por uma vida melhor, como a de Saint-Simon, por exemplo[xiii].
Sem dúvida, a percepção desse princípio cultural é fundamental para pôr em relevo o elemento que resta não-realizado nas superestruturas. Isto, não só porque a análise da história das heresias distingue duas linhas de afirmação do indivíduo – a da liberação externa do Eu e a do fortalecimento da interioridade – mas também porque desdobra uma compreensão diferenciada da ascensão capitalista.
Quer dizer, na abertura do mundo moderno há uma tensão cujos termos são, por um lado, o novo tipo de homem que surgiu com o capital: um homem emancipado e individual, e, em modo combinado, o novo tipo de dominação técnica e racional da existência.
Entretanto, na outra face desta tensão nota-se que tornaram a formular-se as primeiras utopias, colocando-se de novo o velho problema do Direito Natural em sua perspectiva do racionalismo estóico (atitude ascética), mas, desta feita com o horizonte da mentalidade burguesa, numa formulação que Max Weber examinará em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
Como se sabe, a análise weberiana contempla antes de tudo a racionalização, deixando-se influenciar pelo culturalismo abstrato.
Por contra, embora igualmente interessado no estudo da racionalização, Ernst Bloch investigará a nova formulação, tendo em conta o seguinte: (a) – a metamorfose a que o catolicismo primitivo submetera aquele velho problema do direito natural e (b) – o recobrimento superestrutural neoplatônico e escolástico do mesmo.
Entrementes, a percepção do princípio cultural da Igreja faz notar também uma profunda ambigüidade e certa complementaridade no processus dessa abertura do mundo moderno, acentuadas com a obra devastadora da revolução francesa ao fazer desmoronar por completo a superestrutura das relações econômicas do passado remoto (patriarcal)[xiv].
Com essa ambigüidade e esse fragoroso desmoronamento aflorou na abertura do mundo moderno não só (a) – que a burguesia afirmou a vontade individual ao lograr um poder político e (b) – que esta mesma burguesia, em câmbio, permaneceu debilitada inclusive no aspecto de crença e reconhecimento público do seu modo de ser; mas também (c) – que, nas regiões do mais tenaz reduto do medievo, como a Alemanha, esse Eu externamente liberado e a ascensão capitalista levaram não ao poder político, mas ao predomínio de inumeráveis príncipes pavorosamente emancipados todos eles (conseqüência do fim do Sacro Império Romano Germânico), na base da ausência de unidade econômica combinando-se à falta no país de maturidade política e à inexistência de uma entidade jurídica.
Desta forma, com essa percepção da desagregação dos valores cavalerescos feudais em detrimento da pessoa dos camponeses, a análise por Ernst Bloch põe em relevo o seguinte:
Primeiro: com o desmoronamento da superestrutura de relações econômicas de um passado remoto, os demais países perderam a mentalidade comunitária;
Segundo: na Alemanha, essa mentalidade comunitária e até mesmo a profundidade do sentimento de interioridade herdado do gótico tardio e do afundamento (na consciência coletiva) do tabu sacramental, se subtraindo ao fracasso político, foram se refugiar no âmbito do meramente afetivo e emocional [xv] (daí surgirá a psicologia fenomenológica típica do pequeno homem e o concretamente utópico de que já falamos nas observações sobre os anos vinte).
Deste ponto em diante, tendo descoberto a partir da percepção do princípio cultural o estatuto ambivalente da mentalidade comunitária no quadro de abertura do mundo moderno, Ernst Bloch encontrará em alternativa à análise weberiana a abordagem concreta para a nova formulação do velho problema do direito natural, no exame do qual terá em conta o catolicismo primitivo e a escolástica. E o fará não pelo lado da mentalidade de acumulação capitalista, mas no horizonte da marcha do gótico tardio, estudando a comunidade primitiva sobre o enfoque da gradação de terrenal e supraterrenal, cotejando a situação no século II, no século IV e no século XI a partir do contraste entre o aborrecimento do mundo e a sublimação estética do universo estatal racionalizado[xvi].
©2008 by Jacob (J.) Lumier
NOTAS COMPLEMENTARES
[i] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp.111.
[ii] Ver nesta obra em especial as argumentações críticas de Kierkegaard sobre a insuficiência e até impropriedade do posicionamento de Hegel ao incluir o problema da passagem da quantidade à qualidade no sistema da Lógica. Ver também mais adiante neste ensaio, à pág. 21, as observações de Ernst Bloch sobre a noção de realidade essencial na filosofia de Hegel.
[iii] Cf. Bloch, Ernst: Héritage de ce Temps, op. cit, pp.112.
[iv] Argos Panoptes, mitologia grega.
[v] Cf. G.W.F. Hegel: “Lecciones sobre la Estética”, apud Bloch, Ernst: “Avicena y la Izquierda Aristotélica” (Avicenna und die Aristotelische Linke, Berlin 1951), Ciencia Nueva, Madrid, 1966 , pp.66 sq.
[vi] Entelequial no sentido de que o ideal estético em obra cria dependências, correlações, estímulos relacionados à sublimação.
[vii] Orientação esta que Ernst Bloch situa em relação ao Goethe que traduziu l’Essai sur la peinture de Diderot (1798) publicada em 1816.
[viii] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución (Thomas Münzer als Theologe der Revolution, München 1921) Editorial Ciencia Nueva, Madrid, 1968, pág. 66.
[ix] Como se sabe, em face das teorias de hegemonia e dominação que partem da premissa que "o homem é o lobo do homem", a visão de um reino enfim fraternal pode ser figurada como antilobo (na crítica ao Direito Natural primitivo no âmbito da formação da filosofia social cristã, Ernst Bloch examinará o tema das relações com o Estado do Império Romano, figurado em relação ao problema do Mal).
[x] O comunismo primitivo e espiritual será evocado na revolução camponesa do século XVI em consonância com a crença tirada da idéia milenarista de que haveria de preparar o advento do Terceiro Império como sendo o de Jesus Cristo, quem reinaria na Terra mil anos antes do Juízo final. Ver Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op. cit.
[xi] Entelequial no sentido de que o ideal estético em obra cria dependências, correlações, estímulos relacionados à sublimação.
[xii] Ver Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op.cit. págs. 67, 68.
[xiii] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op. cit, págs.203-204. Sobre Saint-Simon e sua chamada utopia dos produtores, na medida em que tuviera como objetivo común el desarrollo de la producción, a sociedade industrial se vería obligada a subordinar a este fin las reglas de la propiedad e incluso a replantear radicalmente el principio de la libertad.
[xiv] A superestrutura correspondente ao antigo Sacro Império Romano Germânico.
[xv] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op. cit, pág. 200.
[xvi] Cf. Bloch, Ernst: Thomas Münzer, Teólogo de la Revolución, op. cit, págs. 181 a 204.