A cor em Belém e o cinzento em Davos
«Nós oferecemos uma outra perspectiva sobre a crise, mostrando que existem alternativas a um capitalismo em falência. Quem pode negar que tal é hoje necessário?»
António Melo, revista Ãfrica 21 *
Lisboa - A nona edição do Fórum Social Mundial decorreu em Belém e eclipsou o seu rival Fórum Económico de Davos, em 39.ª edição. Trinta anos separam as duas iniciativas e cada vez mais Klaus Schwab, o organizador de Davos, se diz próximo de Oded Grajew, o organizador do primeiro FSM, em Porto Alegre. Ambas fizeram o acontecimento mundial do último fim-de-semana de Janeiro.
Há pequenos detalhes que assinalam mudanças de tendências impensáveis até há pouco tempo. O próximo Fórum Social Mundial (FSM) pode vir a realizar-se nos Estados Unidos. Nenhuma manifestação de aberta hostilidade, designadamente a queima da bandeira dos EUA, ocorreu desta vez no FSM. Foi a primeira vez. Outro sinal: o Presidente Lula da Silva participava habitualmente na abertura de Davos e seguia para o encerramento do FSM. Desta vez não tirou visto diplomático para a SuÃça.
Em Davos, a tónica de irreverência cabia ao vocalista do U2, que martelava com a sua possante voz a deriva das economias dos mais ricos, face à fome e doença em Ãfrica. Por se ter cansado, ou por achar que os ricos não têm emenda, Bono fez saber que estava ocupado com a preparação do seu próximo álbum e deixava a cadeira vazia no Fórum Económico Mundial (FEM).
Há apenas dois anos, a chancelerina alemã Angela Merkel pontuava, de dedo em riste em Davos, que não aceitava qualquer recurso a mecanismos estatais para responder à s preocupações que atingem os paÃses menos desenvolvidos: «A minha resposta, clara e sucinta, é não». Por essa altura, a palavra de ordem do G8 era a do liberalismo sem fronteiras e quem tentasse erguer barreiras comerciais para se proteger das «suas próprias fraquezas», dizia a chancelerina, seria excluÃdo da Organização Mundial do Comércio.
A 39.ª edição do FME encerrou sem que ao menos uma declaração firme sobre o não recurso ao proteccionismo aduaneiro por parte dos EUA e da União Europeia fosse proferida em conjunto pelos representantes destes dois blocos económicos. Entretanto, o Governo alemão já abriu créditos de vários milhares de milhões de euros para assegurar a capacidade financeira dos seus bancos e a cada dia que passa promete apoios à indústria automóvel e a outros sectores da economia, em franca ameaça de falência.
O Presidente brasileiro, em 2007, respondeu aos paÃses ricos do G8, representados pelos seus lÃderes, com um apelo à seriedade de intenções: «Vim aqui no meu primeiro mandato e disse que era possÃvel criar uma polÃtica consistente para diminuir a miséria no Brasil. Hoje venho aqui para mostrar que é possÃvel a gente cumprir as metas do milénio, se houver um mÃnimo de compreensão dos paÃses ricos, não para ficar dando dinheiro para os paÃses pobres, mas para investir em projectos que signifiquem o desenvolvimento dos paÃses pobres».
Em 2009 falou do mesmo tema, mas em Belém e para subir o tom: «O proteccionismo, neste momento, só vai agravar a crise, nada resolverá. É importante que os paÃses ricos não esqueçam que foram eles quem inventou essa história de que o comércio devia fluir livremente por todo o mundo».
Os presidentes
A nona edição do FSM teve inÃcio com uma marcha de afirmação dos direitos dos povos à sua dignidade própria, que agrupou entre 120 mil a 130 mil participantes, vestidos com trajes das sete cores do arco-Ãris.
O encontro de Davos abriu à luz do néon num open space de hotel de luxo, com capacidade para abrigar 1600 grandes gestores, 40 chefes de Estado, 300 académicos e uma centena de representantes de ONG. Com os acompanhantes e assessores, devem ter formado ao todo uma pequena cidade de cinco mil pessoas.
Em matéria de custos de organização, o Fórum de Belém ficou-se pelos 26 milhões de euros (33,2 milhões de dólares), na sua maioria suportados pelo Estado brasileiro (25,6 milhões de euros).
Não há informação dos custos de Davos, mas a ter-se em conta que a permanência foi de uma semana e supondo que em média, muito por baixo, cada participante representou um custo de 500€/dia, chega-se ao montante básico de 17,5 milhões de euros (22,3 milhões de dólares). Em todo o caso, deve ter sido a edição menos dispendiosa, pois os grandes banqueiros estiveram ausentes e muitos dos habitués dos anos anteriores já nem banqueiros são, como é o caso dos ex-directores do Lehman Brothers.
As lideranças polÃticas foram representadas por Angela Merkel (Alemanha), Gordon Brown (Reino Unido), Vladimir Putin (Rússia), Wen Jiabao (China), Shimon Peres (Israel) – que protagonizou um dos momentos de tensão do encontro, em polémica com o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, acerca do conflito na Faixa de Gaza – para além do português Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia. O Presidente dos Estados Unidos fez-se representar pela sua conselheira Valerie Jarrett.
Em Belém estiveram cinco presidentes: o brasileiro Lula da Silva, o venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales, o equatoriano Rafael Correa e o paraguaio Fernando Lugo. Embora nem todos tivessem sido acolhidos do mesmo modo – Lula da Silva foi excluÃdo do primeiro encontro com 20 movimentos de esquerda, por estes considerarem que pratica uma polÃtica macroeconómica neoliberal – no grande momento, que foi o debate da noite do primeiro dia (29 de Janeiro), com dez mil pessoas a assistir e a fazer perguntas, o clima geral foi de entendimento.
O correspondente do El PaÃs, Juan Arias, sintetizou esta noite, citando Lula da Silva: «Todos culparam o capitalismo mundial e os responsáveis financeiros do planeta pela crise. Lula defendeu uma saÃda que não passe só por novos caminhos económicos e financeiros, mas, sobretudo, pela construção de um novo modelo produtivo e de consumo ambientalmente sustentável’».
Em Davos não houve consenso e a divergência de opiniões quanto à saÃda para a crise mundial foi claramente ilustrada pelas intervenções do Nobel da Economia de 2001, Joseph Stiglitz, e do secretário-geral da OCDE, Angel Gurria.
No centro do debate esteve o recurso a um banco de depósitos do lixo tóxico financeiro, a ser reciclado por tempo indeterminado, suportado pelo Estado. Assim, os bancos poderiam voltar a funcionar normalmente.
Stiglitz foi incisivo: «Com o dinheiro posto nos planos de recuperação dos bancos americanos, financiar-se-ia um século de protecção social nos Estados Unidos». Gurria procurou o consenso: «Criar bad banks para isolar os activos radioactivos e permitir aos bons bancos voltar a funcionar de novo é, talvez, contestável moral e socialmente, mas é como a democracia vista por Churchill: a pior das soluções com excepção de todas as outras».
Uma solução em todo o caso recusada em Belém, onde uma das palavras de ordem mais ouvidas foi «não vamos pagar a vossa crise».
Ao invés do que ocorreu em Davos, o encontro de Belém terminou com conclusões. Cândido Grzybowski, do grupo fundador do FSM, fez a sÃntese: «Nós oferecemos uma outra perspectiva sobre a crise, mostrando que existem alternativas a um capitalismo em falência. Quem pode negar que tal é hoje necessário?»
As duas partes vão prosseguir o debate, em áreas separadas, e o próximo encontro para apresentar conclusões vai ser em Londres, por ocasião de mais uma reunião do G20, o grupo dos oito mais ricos com os 12 paÃses emergentes.
Artigo publicado na edição de Fevereiro da revista Ãfrica 21